Baby blues e depressão pós-parto: entenda as diferenças e os sinais de alerta dos transtornos que podem surgir após a gestação
Depressão pós-parto atinge uma em cada quatro mães, aponta Fiocruz O puerpério, como é chamado o período entre 40 e 60 dias após o parto, pode ser um mom...
Depressão pós-parto atinge uma em cada quatro mães, aponta Fiocruz O puerpério, como é chamado o período entre 40 e 60 dias após o parto, pode ser um momento de muitos desafios para as mães. As intensas transformações físicas, a adaptação à maternidade e as mudanças na rotina e na alimentação podem desencadear problemas físicos e emocionais à mulher. Em Águas de Santa Bárbara (SP), a Polícia Civil vai investigar se Amanda Christina Batista Rodrigero, de 31 anos, presa na terça-feira (17), após entrar em um trecho do Rio Pardo, no município, carregando a filha recém-nascida, apresentava quadro de depressão pós-parto. A bebê, de 20 dias, foi encontrada morta na quinta-feira (19), às margens do rio. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp O diretor do curso de medicina da Universidade São Caetano do Sul (USCS) em Itapetininga (SP), Sérgio Makabe, explica que a queda hormonal abrupta após o parto pode desencadear transtornos ligados à oscilação de humor, como o baby blues e a depressão pós-parto. Mas qual é a diferença entre essas duas condições? O especialista afirma que, logo após o parto, os hormônios da pessoa grávida, como a progesterona, o estrogênio e o cortisol, estão muito altos devido à geração do feto no útero. Depois do parto, o corpo busca voltar ao seu estado anterior à gestação, causando alterações neuronais. "A alteração abrupta costuma fazer com que a paciente fique mais triste, insegura. A mudança hormonal causa oscilações mais transitórias. Durante as primeiras consultas pós-gravidez, é comum ouvir relatos de que a pessoa está triste, chorando com mais facilidade", diz. O baby blues - tristeza do bebê, em inglês -, pode durar cerca de duas semanas após o parto e, de acordo com Sergio, costuma amenizar e desaparecer. Mesmo assim, é imprescindível retornar ao consultório médico para uma avaliação, independentemente das alterações hormonais. A questão social também é um fator crucial para evitar o desenvolvimento de transtornos envolvendo o humor. A gravidez indesejada, inclusive, é uma das principais causas que podem fazer o quadro do baby blues evoluir para depressão pós-parto. "Nós analisamos se a paciente planejou a gravidez ou se foi indesejada. Se ela teve apoio do pai, da mãe, do companheiro, um apoio social em um geral. Se isso persistir por mais de 14 dias, cerca de 20% dessas mulheres acabam desenvolvendo a depressão pós-parto", conta. Sérgio é diretor dos cursos de medicina na USCS Arquivo pessoal Os sintomas da depressão pós-parto são, segundo o médico, emocionalmente mais intensos do que os dos baby blues. Entre eles, as puérperas relatam baixa autoestima, problemas para dormir e pensamentos suicidas, em casos mais complexos. "Fadiga intensa, dificuldade para dormir e se alimentar. Ela também começa a ter episódios de baixa autoestima, se sentindo feia e, a partir daí, ter pensamentos subsequentes de morte. Há a sensação de que os psiquiatras classificam a gestante como uma inadequação em relação ao bebê, com medo de não ser uma boa mãe", detalha. O especialista classifica a depressão pós-parto como multifatorial, já que pode ser desenvolvida por meio de uma série de gatilhos. O histórico anterior à gestação também pode ser um fator para o diagnóstico. "Com determinantes biológicas, psicológicas e sociais, temos que ver, também, a história prévia da paciente. Existem pacientes que já são depressivas antes mesmo de engravidarem, e isso deve ser tratado durante o pré-natal, que é um exame importantíssimo", pontua. "Nos quadros mais graves, a mãe chega a culpar o bebê por tudo isso e deseja matá-lo. A consulta com um profissional adequado pode sempre ajudar a prevenir os quadros. Não é só perguntar sobre a amamentação, sobre a cicatriz do parto, mas, sim, dar apoio social, perguntando sobre a dinâmica familiar", completa. Depressão pós-parto e baby blues são transtornos diferentes Reprodução/TV Globo A receita de antidepressivos mais eficientes é feita somente depois do diagnóstico de casos mais graves, conforme Sérgio. Além disso, é recomendado que o paciente faça atividades físicas, o que pode ajudar no tratamento da doença. "Existem antidepressivos que não passam pelo leite materno. Assim, nós encaminhamos para a terapia, para o psiquiatra, para que ela possa discutir as inseguranças dela e que isso não se torne uma depressão ainda mais acentuada." Número chama a atenção Um levantamento divulgado pela FioCruz divulgou que, em todo o país, 25% das mães acabam sendo diagnosticadas com depressão pós-parto. A psicóloga Bruna Gonçalves, também de Itapetininga, pontua que o quadro pode causar alucinações visuais e sonoras. "É um transtorno emocional que vai muito além da tristeza e do cansaço. Em um caso mais avançado, pode acabar tendo episódios de psicose, no sentido de criar uma realidade paralela, tanto auditiva como visual. Às vezes, já existe outro transtorno psiquiátrico envolvido", explica. Bruna destaca que ter vivenciado gestações ou partos anteriores não torna a mulher imune ao desenvolvimento de transtornos. "Pode acontecer de ser no segundo, no terceiro filho. Apesar de estudos, uma situação não impede a outra, apesar de a chance de acontecer na primeira gestação ser maior. Não há como generalizar, afinal, existem as questões pessoais sobre a vida da pessoa gestante", finaliza. Possível caso de depressão pós-parto Em relação ao caso de Águas de Santa Bárbara, segundo o delegado Paulo Sérgio Garcia, após a localização do corpo, o inquérito passou a apurar o ocorrido como infanticídio, crime caracterizado quando a mãe mata o filho durante o parto ou logo após, sob a influência do estado puerperal. Ainda de acordo com o delegado, a mulher afirmou que tentou resgatar a filha, mas não conseguiu. "No interrogatório, ela mencionou que, pela manhã, saiu com a filha e ouviu uma 'voz' dizendo que ela deveria se matar. Ela decidiu levar a criança junto e ingressou no rio. Acho que ela desistiu durante o trajeto, só que a água do rio é muito forte e levou a criança. Ela tentou reverter a situação indo atrás da criança, andou algo em torno de um quilômetro ou mais, chegando próximo à divisa do município de Óleo (SP), só que não conseguiu", detalha o delegado. Polícia investiga vídeo que mostra mãe entrando em rio com filha recém-nascida em Águas de Santa Bárbara (SP) Reprodução O delegado disse ainda que a mulher relatou estar sofrendo de depressão pós-parto. Segundo ele, o marido de Amanda, que também prestou depoimento, mencionou que há histórico de suicídio na família dela. "Como já tinha um histórico de suicídio na família, ficaram preocupados após ela sair de casa pela manhã", explicou o delegado. "Em decorrência da menção de depressão puerperal, então, a nossa tipificação e encerramento da investigação vai ser pela prática do infanticídio", completou. A pena para o crime de infanticídio, que está previsto no artigo 123 do Código Penal, é de dois a seis anos de detenção. O caso Uma câmera de monitoramento de uma propriedade rural registrou o momento em que Amanda entra em um trecho do Rio Pardo carregando a filha nos braços. A bebê nasceu no dia 28 de janeiro. O Corpo de Bombeiros teve acesso às imagens que mostram a mulher caminhando às margens do rio e, em seguida, entrando na água com a criança. A corporação não divulgou o vídeo. Moradores viram a mulher dentro do rio e acionaram o Corpo de Bombeiros. Ela foi encontrada com vida em um trecho do Rio Pardo próximo à Ponte do Óleo, na cidade de Óleo (SP), a aproximadamente 14 quilômetros de distância do local onde entrou. Ela foi retirada da água por dois moradores. Em seguida, foi encaminhada pelo Corpo de Bombeiros ao pronto-socorro. Ponte sobre o Rio Pardo em Óleo (SP) Reprodução/Google Street View De acordo com a Polícia Civil, o corpo da bebê foi localizado por bombeiros na região de desemboque da lagoa de tratamento, aproximadamente 1,5 quilômetro abaixo do trecho utilizado pela mãe para entrar no rio. A área foi preservada e passou por perícia. Após os exames periciais, o corpo foi liberado e encaminhado ao serviço funerário. A bebê, chamada Melissa, foi sepultada no Cemitério Municipal de Águas de Santa Bárbara, na noite de quinta-feira (19). Não houve velório devido ao estado de decomposição do corpo. Após ser presa na terça-feira, Amanda passou por audiência de custódia e teve a prisão convertida para preventiva na tarde de quarta-feira (18). O g1 tenta contato com a defesa dela. Corpo de bebê recém-nascida que desapareceu após mãe entrar em rio é encontrado a 1,5 km do ponto onde mulher acessou a água Arte/g1 Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM