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‘Grito do sorro’: pesquisador registra vocalização do graxaim-do-campo

‘Grito do sorro’: pesquisador registra vocalização do graxaim-do-campo Um pesquisador do Projeto Felinos do Pampa registrou uma cena curiosa durante o mon...

‘Grito do sorro’: pesquisador registra vocalização do graxaim-do-campo
‘Grito do sorro’: pesquisador registra vocalização do graxaim-do-campo (Foto: Reprodução)

‘Grito do sorro’: pesquisador registra vocalização do graxaim-do-campo Um pesquisador do Projeto Felinos do Pampa registrou uma cena curiosa durante o monitoramento de fauna no Rio Grande do Sul: a vocalização de defesa de um graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus). O som, conhecido popularmente como "grito do sorro", foi emitido pela fêmea para proteger o parceiro. O flagrante ocorreu durante uma atividade de campo no bioma Pampa. O som costuma ser emitido em situações de alerta, interação social e defesa de território. Nem cachorro, nem raposa: conheça o graxaim-do-campo “Registramos a situação durante uma atividade de campo, previamente autorizada pelo ICMBio, que envolvia a captura direta de indivíduos com o uso de gaiolas”, explicou o biólogo Felipe Peters, autor do registro. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no WhatsApp Graxaim-do-campo costuma emitir som em situações de alerta, interação social e defesa de território Felipe Peters O objetivo da ação era acessar informações sobre a saúde populacional do graxaim e compreender melhor seus deslocamentos com a instalação de colares de GPS. A gravação do som, no entanto, foi uma surpresa. “Havíamos capturado o macho, enquanto a fêmea permaneceu ao redor da equipe. Ela claramente manifestou seu descontentamento e ‘protestou’ vocalizando quando nos aproximamos”, contou. Veja mais notícias do Terra da Gente: 'DICIONÁRIO CAPIVARA': Pesquisa traduz 10 sons usados pelo maior roedor do mundo; veja alguns CURIOSIDADE: Conheça o melro-d'água, pássaro que mergulha até dois metros de profundidade para caçar VÍDEO: Pesquisadores flagram pela primeira vez caninana atacando ninhos de gavião e bem-te-vi A atividade vocal do graxaim-do-campo é mais comum durante períodos noturnos e crepusculares, especialmente na primavera, quando ocorre o pico reprodutivo Felipe Peters Um grito que comunica Ao contrário do que muita gente imagina, o graxaim-do-campo não vocaliza por acaso. O chamado faz parte de um sistema complexo de comunicação, usado em diferentes contextos do dia a dia da espécie. “As vocalizações ocorrem em contextos de contato entre indivíduos do par, defesa territorial e alerta contra ameaças, sendo mais frequentes durante o período reprodutivo”, detalhou o pesquisador. O graxaim-do-campo é um canídeo de porte médio que pesa entre 3 e 8 quilos e pode chegar a 72 centímetros de comprimento corporal Felipe Peters Segundo ele, chamados mais longos ajudam a manter a coesão do casal monogâmico e a delimitar território, enquanto vocalizações curtas e repetidas surgem em situações de risco, como no episódio registrado. Esse comportamento também tem hora para acontecer. “A atividade vocal é mais comum durante períodos noturnos e crepusculares, especialmente na primavera, quando ocorre o pico reprodutivo”, disse Felipe. É nesse período que o Pampa ganha uma trilha sonora própria, conhecida de quem vive no campo. Quem é o graxaim-do-campo O graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus) é um canídeo de porte médio, com aparência elegante e adaptada à vida em áreas abertas. Pesa entre 3 e 8 quilos e pode chegar a 72 centímetros de comprimento corporal. A distribuição do graxaim-do-campo ocorre no leste da Bolívia, Paraguai, Uruguai, norte e centro da Argentina e no sul do Brasil Felipe Peters “Ele apresenta coloração característica, com laterais do corpo e pescoço avermelhados, dorso acinzentado e ventre esbranquiçado”, descreveu o especialista. A cauda longa, com ponta preta, as orelhas grandes e triangulares e as manchas escuras nas patas ajudam na identificação. É comum confundir o graxaim com o cachorro-do-mato, mas há diferenças importantes. “O graxaim tem membros, focinho e orelhas proporcionalmente mais longos e coloração mais clara”, destaca o pesquisador. Um animal do campo aberto A distribuição do graxaim-do-campo acompanha os campos naturais da América do Sul. Ele ocorre no leste da Bolívia, Paraguai, Uruguai, norte e centro da Argentina e no sul do Brasil. “No Brasil, está presente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, ocupando todo o bioma Pampa e avançando por áreas campestres até o limite do Cerrado”, explicou Felipe. A expansão de áreas abertas, inclusive por desmatamento, acabou favorecendo a espécie em alguns locais. O habitat preferido do graxaim-do-campo são campos naturais, estepes e pastagens Felipe Peters O habitat preferido são campos naturais, estepes e pastagens. “Ele evita formações florestais densas e demonstra grande plasticidade ecológica, podendo ser encontrado em paisagens agrícolas, dunas costeiras, banhados e até regiões de altitude elevada”, afirmou. Por que sorro? O nome popular carrega história. "Sorro" deriva diretamente do termo espanhol ‘zorro’, que significa raposa, e reflete a forte influência cultural das regiões de fronteira do Pampa”, explica Felipe. Mais do que uma tradução, o nome traz consigo um imaginário construído ao longo de séculos. No folclore regional, o sorro aparece como figura astuta, ambígua, às vezes admirada, às vezes temida. O nome “sorro” vem do espanhol zorro, que significa raposa, e revela a influência cultural das regiões de fronteira do Pampa Felipe Peters “O animal é tão emblemático da paisagem pampeana quanto as pastagens ou as cercas de arame”, disse o pesquisador. Essa relação ancestral entre humanos e canídeos no Cone Sul, inclusive, aparece em registros arqueológicos, mostrando que a convivência vai muito além do presente. Quando o pampa vira música O chamado do graxaim atravessou a ciência e chegou à música regional. Na canção Do Fundo da Grota, o cantor Baitaca canta: “escuto o grito do sorro”. Para Felipe, o verso descreve algo muito real. “O ‘grito do sorro’ representa um elemento real e tradicional da paisagem acústica pampeana, que acontece principalmente durante o anoitecer das primaveras”. Segundo ele, pode soar assustador para quem vem da cidade, mas é um som comum para quem conhece o campo. A música, nesse contexto, ajuda a preservar memórias que não estão nos livros. “A música regional mantém viva a memória sensorial do Pampa, incluindo sons naturais que hoje muitas pessoas já não reconhecem [...]. Ao citar o sorro, a canção registra uma experiência coletiva e reforça a identidade do bioma”, concluiu. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente