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Orelhões: moradores do Alto Tietê contam histórias afetivas com o aparelho

Orelhão faz parte da memória afetiva dos moradores do Alto Tietê O Alto Tietê possui 775 orelhões instalados, em todo o Brasil são 38 mil aparelhos. Entre...

Orelhões: moradores do Alto Tietê contam histórias afetivas com o aparelho
Orelhões: moradores do Alto Tietê contam histórias afetivas com o aparelho (Foto: Reprodução)

Orelhão faz parte da memória afetiva dos moradores do Alto Tietê O Alto Tietê possui 775 orelhões instalados, em todo o Brasil são 38 mil aparelhos. Entretanto, a partir deste mês, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) vai começar a retirar os orelhões em todo o país. Com o fim dos contratos no ano passado, as operadoras de telefonia deixaram de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura de telefones públicos. Até 2028, os orelhões só devem ser mantidos em cidades onde não há rede de celular disponível. ✅ Clique para seguir o canal do g1 Mogi das Cruzes e Suzano no WhatsApp Durante os anos 80, 90 e começo dos anos 2000, os aparelhos tiveram um “boom” no país e foram muito utilizados por quem não tinha celular ou telefone em casa. A remoção deles traz um sentimento de nostalgia para quem costumava telefonar pelo orelhão. Como o caso do microempreendedor de Mogi das Cruzes, Manoel Teixeira de Araújo Filho. Ele se mudou da Paraíba aos 18 anos, em 1993. Leia também Orelhões começam a ser retirados das ruas de todo o país; Alto Tietê tem 775 aparelhos “Eu vim pra São Paulo pra procurar uma vida melhor, ter o meu próprio dinheiro, ajudar pai e mãe, nós somos da roça, a dificuldade era gigantesca, trabalhava pra poder ganhar um dinheirinho, mas a dificuldade pra nós era mais complicada. Pra gente que era mais novo, crescia, completava 18 anos, picava a mula pra São Paulo. Era grande, porque nunca tinha saído de dentro de casa, pai e mãe não têm nada melhor, né. A saudade é bastante até hoje”. Para se comunicar com a família, ele ligava pelo telefone público. “Tinha que comprar as fichas, logo a cartela com bastante ficha, porque às vezes tinha até fila pra ligar. Depois não, depois foi ampliando bastante os aparelhos pela cidade, aí foi chegando a tecnologia, já mudou pra cartão né, muitas vezes caía a ligação, porque a gente na empolgação falando, na emoção, esquecia de pôr a ficha, aí tinha que colocar de novo, ligar de novo”. Manuel explicou que cada vez que falava com a família, já avisava quando ligaria de novo. “Então, ficava mais ou menos combinado na última ligação o outro dia da semana que ia ligar pra poder ela [mãe] já ir pra ficar lá no orelhão pra atender a ligação”. O primeiro orelhão surgiu em 1934, no Rio de Janeiro, que na época era capital do país. De acordo com o historiador Glauco Ricciele, no governo de Getúlio Vargas, foi entendido que era essencial a população ter acesso a esses aparelhos, principalmente para conectar pontos da mesma cidade ou de diferentes estados. “A partir daí, se popularizam os telefones públicos nas ruas, antes era só nas farmácias, bares e restaurantes”. Ricciele explicou que o design dos orelhões é um ícone nacional, pois foi criado no Brasil pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, em 1971. Antes do formato como conhecemos, os telefones públicos ficavam dentro de cabines. No entanto, elas eram insalubres, quentes e propensas a depredações. “A Companhia Telefônica Brasileira desenvolve um estilo próprio do Brasil. Se pensou em um espaço aberto, com acústica, e principalmente, que protegesse o aparelho e a pessoa das intempéries. Esse design, primeiramente, foi pensado em formato de um ovo, mas olhando hoje ele fica como uma grande orelha, tanto que tem o nome de orelhão, e basicamente ganhou cores diferentes, temáticas em alguns estados. São itens que são memórias afetivas e itens da cultura brasileira”. Já a professora de Mogi das Cruzes, Nilza Gomes, não concorda com a retirada dos aparelhos. “Eles estão descartando a memória, porque tiraram esses 38 mil orelhões que ainda existem pelo Brasil, eles ainda estão funcionando. O orelhão, em algumas cidades, nesse Brasil imenso, tem cidades que não têm a rede de internet e nem antenas pra celulares, então tirar de todo o país o orelhão, acredito que ainda vai fazer falta”. Para o historiador, a história está sempre em movimento e a sociedade acaba acompanhando as revoluções tecnológicas. “Hoje estamos na era das IAs, estamos em um momento em que o telefone não é mais para ligação, é mais por mensagem ou videochamada. E isso é a evolução que o mundo passa. Então, esperamos que o futuro possa também escrever novas páginas, como os pulsos do telefone já fizeram, aproximar corações e pessoas, à longa distância. Isso é tecnologia, isso é evolução da humanidade”, concluiu. História do telefone no Brasil Segundo o historiador Glauco Ricciele, o ser humano sempre teve a necessidade de se comunicar. Primeiro, por meio dos desenhos rupestres, por símbolos e até mesmo fumaças comunicando longas distâncias.  “A evolução humana trouxe depois, o diálogo, a presença, a fala e isso nos acarretou em uma relação humana de evolução, então, hoje, a música, o telefone, hoje basicamente as imagens geradas por vídeos, tudo isso aproxima e é necessário, e é basicamente um dos pilares da humanidade é a comunicação, o ser humano sempre é ligado à comunicação, à voz, à imagem”. Dom Pedro II foi quem trouxe o telefone para o Brasil. Como era um aficionado por invenções, ele visitou a feira de invenções da Filadélfia, onde conheceu Alexander Graham Bell, que foi quem criou o aparelho. “Dom Pedro II compra, a partir desse diálogo, o primeiro telefone que saia dos Estados Unidos, então o Brasil foi o segundo país do mundo a ter um telefone. Ele instala dentro do Palácio da Boa Vista, no Rio de Janeiro, entre cômodos, pra comunicação interna. Então, curiosamente, não foi um telefone pra ligar entre cidades”, detalhou Ricciele. A partir desse momento, o telefone começou a entrar em uma crescente no mundo e o Barão de Mauá intensificou a ligação de cabeamento entre continentes. “Basicamente, foi a evolução que temos na história do Brasil, a chegada desse aparelho. Primeiramente, temos ali uma constituição desse aparelho para a elite, durante a virada do século XIX para o século XX”, disse o historiador. Quem se lembra bem de como eram as ligações telefônicas do passado é a professora de Mogi das Cruzes, Nilza Gomes. Ela contou que, quando era criança, não tinha telefone em casa, mas a vizinha da frente tinha o aparelho. Quando a família precisava fazer uma ligação para a tia que morava em Jacareí, ia até a casa da vizinha. “O telefone tinha um aparelho pendurado na parede com um conezinho, e um fio que tinha outro cone que a gente acessava e punha na orelha pra falar. As adultas chamavam o 01, pediam a ligação, e uma hora ou uma hora e meia depois, a telefonista chamava e completava a ligação”. Nilza só foi ter a própria linha telefônica nos anos 70. Isso, após enfrentar horas e horas na fila do prédio da telefônica. “Meus irmãos, que eram adolescentes na época, ficaram na fila durante dias pra que eu pudesse adquirir. Dois anos pagando o telefone e mais um tempo pra recebê-lo. Era o 2757. E comprei um vermelho, porque era chique ter um telefone vermelho. Esse telefone eu tenho ainda hoje, foram acrescentando números, é o mesmo que eu tenho, o meu telefone fixo ainda é o 2757”. Leia mais Suspeito de stalking em Suzano diz ter sido 'orientado pelo Espírito Santo' Região apresenta 775 orelhões André Luis Rosa / Tv Vanguarda Veja tudo sobre o Alto Tietê