Sem corpo e sem certidão de óbito, tia cria sobrinho órfão de feminicídio e lamenta: 'Ela virou apenas um número'
O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste 8 de março, é tradicionalmente uma data para refletir sobre os desafios e conquistas da jornada feminina, da de...
O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste 8 de março, é tradicionalmente uma data para refletir sobre os desafios e conquistas da jornada feminina, da desigualdade no mercado de trabalho à busca por direitos fundamentais. Mas, em 2026, os números impõem uma reflexão mais urgente: o risco que corre a vida das mulheres brasileiras. Mais do que uma data de celebração, o momento exige olhar para uma realidade que atravessa famílias e deixa marcas permanentes. O motivo é estatístico e cruel: em 2025, o Brasil atingiu o topo da série histórica de violência contra mulheres, com quatro feminicídios registrados por dia e dez tentativas de assassinato a cada 24 horas. O reflexo desse cenário também chega a Juiz de Fora. O número de feminicídios consumados na cidade registrou aumento de 200% entre 2019 e 2025, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp Feminicídio: uma vida interrompida, várias vidas atravessadas Silvânia Cristian da Conceição, de 52 anos, não tem o que comemorar nesta data. Ela vive o luto por um corpo que nunca foi encontrado, por um velório que nunca aconteceu e por um sepultamento impossibilitado. Há mais de um ano, a moradora de Santa Cruz de Minas, a 162 quilômetros de Juiz de Fora, tenta conseguir o atestado de óbito da irmã, Tamara Rayani da Conceição, desaparecida desde 2024 e considerada vítima de feminicídio. Nesse período, também passou a criar o filho que Tamara deixou. Sem o corpo da irmã e sem a conclusão da Justiça, Tamara é o retrato de uma dor que se repete em muitas famílias: a de mulheres vítimas da violência de gênero, cujas histórias permanecem suspensas entre o desaparecimento e a espera por respostas que não chegam. Tamara Rayani da Conceição, desapareceu em 2024 e é considerada vítima de feminicídio Arquivo Pessoal Nunca mais voltou para casa Tamara Rayani da Conceição tinha 33 anos quando desapareceu em 23 de outubro de 2024. Ela vivia em São João del Rei com um homem de Rondônia, com quem mantinha um relacionamento. Segundo a irmã, a união era marcada por um comportamento possessivo e conturbado do parceiro. No dia 22 de outubro, um dia antes do crime, Tamara decidiu colocar um ponto final na relação. "Ela falou que ia largar dele, que estava alugando outra casa. Mas ele não aceitou", lembrou Silvânia. Segundo a irmã, o suspeito, Ivo Leite da Silva, confessou o crime ao entrar em contato com um tio e com a própria mãe, e afirmou ter ocultado o corpo. Desde então, ele permanece foragido. O g1 não conseguiu localizar a defesa do suspeito. Dias depois do desaparecimento da vítima, o carro usado por Ivo foi encontrado em Sacramento, no Triângulo Mineiro, a cerca de 500 km de distância de São João del Rei. No entanto, uma outra prova foi encontrada mais perto: o para-choque do veículo, com vestígios de sangue humano, foi localizado por um dos irmãos da vítima em uma área de garimpo em Ritápolis, cidade vizinha ao local do desaparecimento. O luto sem fim e a burocracia A família explica que a confissão do assassino e as evidências encontradas no para-choque do veículo não foram suficientes para que o processo fosse encerrado. Sem o corpo e sem o resultado do exame de DNA, que tramita em Belo Horizonte há meses, Silvânia não consegue emitir o atestado de óbito da irmã. "Minha irmã virou apenas mais um número na taxa de feminicídio. A ausência de resposta desmotiva a acreditar na Justiça para nós, que somos pobres", desabafa Silvânia. O impacto da burocracia atinge também o filho de Tamara, de 13 anos. Silvânia, que hoje detém a guarda provisória do sobrinho, conta que o adolescente tenta lidar com o trauma, mas a família enfrenta dificuldades para acessar o suporte necessário. Sem a certidão de óbito, o menino também não consegue ter direito à pensão de um salário mínimo oferecida pelo Governo Federal a órfãos do feminicídio. "Ele é um menino maravilhoso, não tem um dia que não fale da mãe antes de dormir. Não temos condições de ajuda psicológica, então buscamos Deus e o amor da nossa família". Série histórica Casos de Feminicídio em JFO Apelo por um olhar prioritário da Justiça Neste Dia da Mulher, o apelo de Silvânia é por um olhar prioritário da Justiça. Ela descreve Tamara como uma mulher "caprichosa", que trabalhava em restaurantes e pousadas, fazia faxinas e manicures para não deixar faltar nada ao filho. "O que o caso dela representa hoje? A necessidade de um olhar prioritário. As medidas protetivas muitas vezes não valem de nada. Queremos agilidade. Não falo só pela minha irmã, mas por tantas mulheres pobres que estão tendo as vozes apagadas pela força bruta." Até o fechamento desta reportagem, Ivo Leite da Silva permanecia foragido. Segundo informações repassadas à família pela Polícia Civil, o nome do suspeito foi incluído na lista da Interpol, mas não há atualizações sobre o paradeiro. O que diz a Polícia Civil O g1 entrou em contato com a Polícia Civil para atualizar o status da investigação, o andamento do exame de DNA e as buscas pelo suspeito, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem. LEIA TAMBÉM: Jovem é socorrida em estado grave após ser agredida pelo ex-companheiro em MG Mulher morre após ser golpeada com chicote de madeira pelo marido em MG ASSISTA TAMBÉM: Violência contra a mulher: uma em cada quatro já sofreu agressão Violência contra a mulher: uma em cada quatro já sofreu agressão VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes