'Vi pontinhos azuis no feijão', diz vítima em júri de madrasta acusada de envenenar enteados
Madrasta acusada de envenenar enteados vai a júri popular O julgamento de Cíntia Mariano Dias Cabral, acusada de envenenar os dois enteados com “chumbinho...
Madrasta acusada de envenenar enteados vai a júri popular O julgamento de Cíntia Mariano Dias Cabral, acusada de envenenar os dois enteados com “chumbinho”, começou nesta quarta-feira (4), no III Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. O primeiro a depor foi Bruno Carvalho Cabral, vítima sobrevivente do caso, e irmão de Fernanda Cabral, morta por envenenamento. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Ao relembrar o dia em que passou mal após almoçar na casa da madrasta, ele contou que percebeu algo estranho no prato. “Percebi que o gosto estava estranho e reparei muitos pontinhos azuis no feijão”. Bruno Carvalho Cabral, que sobreviveu ao envenenamento, foi o primeiro a depor e descreveu no tribunal o almoço em que passou mal após comer na casa da madrasta. Ele se emocionou ao lembrar da irmã. Reprodução redes sociais TJRJ Durante o depoimento, Bruno também se emocionou e chorou quando foi questionado sobre a irmã, Fernanda Cabral, que morreu após um episódio semelhante. Bruno relatou que o episódio aconteceu após um simulado escolar em um sábado. Segundo ele, no dia anterior Cíntia o convidou para almoçar na casa onde ela morava com o pai dele. Após a prova, os dois foram buscá-lo. No tribunal, o jovem afirmou que estranhou a forma como a comida foi servida naquele dia. Segundo ele, a madrasta entregou diretamente o prato já com feijão. "Na hora de todo mundo se servir, ela já me deu o prato com feijão. Só o meu. O prato só com feijão. Achei estranho, mas tudo bem. Me servi e comecei a comer. Percebi que o gosto estava estranho e reparei muitos pontinhos azuis no feijão", disse ele. De acordo com Bruno, ele chegou a separar algumas das partículas e questionar Cíntia sobre o que havia no prato. Ele afirmou que a madrasta ficou nervosa no momento. "Eu comecei a separar, mas achei estranho e fui questionar ela sobre isso. Mas foi muito estranho porque logo depois ela apagou a luz e ficou muito estranha, nervosa com aquilo". Cíntia Mariano e Bruno Cabral (montagem) Reprodução Após o almoço, Bruno disse que decidiu ir para a casa da mãe para contar o que havia acontecido. Segundo ele, naquele momento não imaginava que estivesse envenenado e chegou a se deitar. Pouco depois, passou mal. "Minha mãe disse que 10 minutos depois eu acordei com a língua toda enrolada e gritando por ela". Bruno contou que acordou com sintomas graves e precisou de ajuda para se locomover. "Eu lembre que acordei muito suado e com uma dificuldade para andar. Para descer as escadas da casa eu precisei da ajuda da minha mãe porque eu não consegui descer sozinho (...) Chegando no hospital eu fiquei com dificuldade de enxergar.", relatou. Segundo o jovem, naquele momento ele já acreditava que havia sido vítima de envenenamento. Bruno também disse que, ao passar mal, associou imediatamente o episódio à morte da irmã. "Quando eu acordei nesse dia envenenado eu já soube que com ela (a irmã) tinha acontecido a mesma coisa". A ré, Cíntia Mariano Dias Cabral, responde por homicídio qualificado pela morte de Fernanda Cabral, de 22 anos, e por tentativa de homicídio contra Bruno, que tinha 16 anos na época dos fatos. Segundo a denúncia do Ministério Público, ela teria colocado veneno na comida servida aos dois enteados em ocasiões diferentes, em 2022. Conflitos entre filhos e madrasta Pai de Bruno e Fernanda Cabral, Adeílson Cabral afirmou em depoimento no júri que havia conflitos frequentes entre os filhos e Cíntia Mariano, com quem manteve um relacionamento por cerca de cinco anos. Segundo ele, as discussões eram mais comuns entre a ré e Fernanda, mas também envolviam o irmão da jovem. Bruno com a irmã, Fernanda, que morreu envenenada Reprodução/Redes sociais Adeílson disse que as brigas com a filha aconteciam por situações do cotidiano. "Era coisa de trabalho, que gastou um pouco mais, que colocou alguma coisa fora do lugar (...) a Cintia brigava muito mais", afirmou. Ele também relatou que costumava favorecer a filha em algumas situações, o que incomodava a companheira. "Eu favorecia sim a minha filha, questão de horário, de dinheiro, e isso incomodava a Cintia. Eu proporcionava viagens, dava algumas oportunidades, mas era minha filha. Ela me pedia e eu fazia. Não tinha como dizer não para minha filha", contou. Segundo o pai, Bruno também tinha problemas de convivência com a madrasta e, por isso, não costumava frequentar a casa onde o casal morava. Ao relembrar o dia em que o filho passou mal após almoçar no local, Adeílson afirmou que o alerta sobre a possibilidade de envenenamento surgiu quando soube que o adolescente havia sido levado ao hospital. "O Bruno chegou a falar: 'o feijão não ta legal'. Ele foi pra casa da mãe dele e logo depois a Jane (mãe dele) ligou dizendo que o Bruno estava passando mal." Adeílson Cabral, pai de Bruno e Fernanda, e companheiro da Cintia na época do crime, presta depoimento. Reprodução redes sociais TJRJ Segundo ele, naquele momento passou a considerar que os episódios envolvendo os dois filhos poderiam estar relacionados. Adeílson afirmou que a suspeita também recaiu sobre Cíntia, que havia preparado a comida naquele dia. "Sim (desconfiei da Cintia). O alerta veio porque eu vi tudo que aconteceu com o Bruno, mas com a Fernanda eu não vi." O pai das vítimas disse ainda que, após o início das investigações, questionou diretamente a companheira sobre o que teria acontecido. Segundo ele, a relação entre os dois terminou após o caso vir à tona. O que diz a denúncia Segundo a denúncia, em 15 de março de 2022, a acusada teria colocado veneno na refeição de Fernanda. A jovem passou mal logo após comer, foi hospitalizada e morreu 13 dias depois. Em maio do mesmo ano, de acordo com o MPRJ, Cíntia teria repetido o método ao servir alimento contaminado a Bruno, que sobreviveu. O Ministério Público sustenta que há prova da materialidade e da autoria. De acordo com os autos, as duas vítimas apresentaram sintomas compatíveis com intoxicação exógena por carbamato — princípio ativo do “chumbinho”. Laudos periciais apontaram que a morte de Fernanda e as lesões sofridas por Bruno decorreram de ação química provocada por envenenamento. A acusação também afirma que o crime foi praticado por motivo fútil, por ciúmes da relação dos jovens com o pai. LEIA TAMBÉM: Análises feitas pós-exumação confirmam que estudante foi envenenada Laudo comprova envenenamento de enteado por 'chumbinho' O julgamento chegou a ser iniciado em outubro de 2025, mas foi interrompido após a defesa deixar o plenário. "Nós imediatamente pedimos a extração das informações, dessa perícia do telefone. Até porque o delegado, por diversas vezes, menciona mensagens desse telefone. Então, nós precisamos, temos que ter essas mensagens", disse o advogado Carlos Augusto dos Santos. "Pedimos o adiamento com base nisso, porque não tivemos acesso a essa extração, porque é essencial para a defesa. E a juíza entendeu pelo não adiamento, e nós não temos como fazer um plenário sem essas provas. Abandonamos o plenário, porque é impossível fazer um plenário com ausência dessas provas." Após o episódio, o Tribunal de Justiça do Rio remarcou o júri para 4 de março de 2026. Etapas do julgamento O caso está sendo julgado pelo Tribunal do Júri, responsável por crimes dolosos contra a vida, como homicídio. Sete jurados, cidadãos comuns sorteados entre pessoas previamente convocadas pela Justiça, são os responsáveis por decidir se Cíntia deve ser condenada ou absolvida. A sessão começou com a chamada dos jurados. Em seguida, sete foram sorteados para formar o Conselho de Sentença. Cíntia Mariano é acusada de ter matado a enteada Fernanda Cabral (imagem de arquivo) Raoni Alves \ g1 Rio O primeiro a falar foi a vítima sobrevivente, nesse caso, Bruno Cabral, irmão de Fernanda. Em seguida, serão ouvidas as testemunhas indicadas pela acusação e, depois, as da defesa. Ao final dessa etapa, a ré será interrogada pelo juiz e pode responder às perguntas da acusação e da defesa ou optar por permanecer em silêncio. Encerrados os depoimentos, têm início os debates. O Ministério Público dispõe de uma hora e meia para sustentar a acusação. A defesa tem o mesmo tempo para apresentar seus argumentos. Depois, há uma hora de réplica para a acusação e uma hora de tréplica para a defesa. Etapas da sessão: Depoimento da vítima (sem tempo fixo) Depoimentos das testemunhas de acusação (sem tempo fixo individual; seguem até o encerramento da instrução) Depoimentos das testemunhas de defesa (sem tempo fixo individual) Interrogatório da ré (sem tempo fixo) Debates – acusação (Ministério Público) (1h30) Debates – defesa (1h30) Réplica da acusação (1h) Tréplica da defesa (1h) Formulação dos quesitos e votação pelos jurados em sala secreta (sem tempo determinado) Proclamação do resultado pelo juiz (imediata após a votação) Concluídos os debates, os jurados se reúnem em sala secreta para votar os quesitos formulados pelo juiz, que tratam da materialidade do crime, da autoria e das qualificadoras. A decisão é tomada por maioria dos votos. Após a votação, o juiz presidente proclama o resultado e, em caso de condenação, fixa a pena. Relembre o crime Cíntia é ré por homicídio e tentativa de homicídio com uso de “chumbinho”, substância usada como veneno para ratos. Segundo as investigações, Cíntia teria colocado chumbinho na comida dos enteados, num intervalo de dois meses, por ciúmes da relação deles com o pai, Adeílson Jarbas Cabral, com quem ela vivia havia 6 anos. Fernanda Cabral Reprodução/Redes sociais Fernanda morreu em março de 2022, depois de 13 dias internada em um hospital de Realengo, na Zona Oeste. Dias depois, o irmão dela, Bruno, também apresentou sintomas de envenenamento após almoçar feijão na casa da madrasta. O rapaz contou à polícia que o feijão estava “amargo e com pedrinhas azuis” e começou a passar mal logo depois da refeição. Ele conseguiu sobreviver, mas a mãe desconfiou do crime e procurou a 33ª DP (Realengo), que iniciou as investigações. Prisão e confissões Cíntia foi presa em maio de 2022, enquanto prestava depoimento na 33ª DP. Antes da prisão, chegou a tentar se matar, segundo a investigação. Durante o processo, dois filhos biológicos da acusada afirmaram em juízo que a mãe confessou ter colocado veneno na comida dos enteados. "No dia que ela saiu do hospital, ela teve alta, e foi com meu irmão para a casa da minha avó. Na noite de quinta, meu irmão me ligou e disse que eles fizeram uma oração e que ela assumiu durante a oração" "Na sexta, eu fui pra casa da minha avó e eu comecei a falar com ela. De início, ela falou que não fez (...) Eu comecei a falar pra ela me contar, que eu precisava ouvir da boca dela e que se eu descobrisse depois eu nunca mais iria ver ela na minha vida. Eu perguntei por que ela puxou o prato dele (Bruno), ela falou que fez (envenenamento) e que puxou o prato por ter se arrependido", contou Carla Mariano, filha de Cíntia. O irmão dela, Lucas Mariano, também afirmou ter ouvido a mãe admitir o crime. "Eu comecei a ter certeza, no dia do almoço do Bruno. Nesse dia deu tudo errado. Para o que ela queria fazer, deu tudo errado. Foi muito nítido o manuseio dela no prato, o nervosismo dela, depois o Bruno ter passado mal cerca de 30, 40 minutos depois. Por tudo também que a gente já sabia de histórico familiar", comentou Lucas. "Ela admitiu de imediato que com o Bruno ela tentou (envenenar). Da Fernanda, ela tentou negar, mas depois ela falou", comentou Lucas. Exumação do corpo O corpo de Fernanda Cabral foi exumado um mês após a morte, já sob suspeita de envenenamento. Uma das análises feitas indicou que ela foi mesmo vítima de envenenamento. Durante audiências anteriores, a médica Marina de Carvalho, que atendeu a jovem no Hospital Albert Schweitzer, relatou que não suspeitou de envenenamento no primeiro momento. Já o ex-diretor do IML, Leonardo Dias Ribeiro, ouvido como testemunha de defesa, afirmou que o corpo deveria ter sido encaminhado ao Instituto Médico Legal, já que se tratava de uma morte súbita e suspeita. "Não é comum uma jovem saudável apresentar uma morte súbita e, por isso, normalmente se deve encaminhar ao IML", explicou o médico. Fernanda Cabral Reprodução/TV Globo